sexta-feira, 6 de novembro de 2009

"Sinceramente, eu acho que Heidegger era mais filósofo do que Sartre."

Nesta entrevista, Gerd Bornheim, talvez o melhor comentador da obra de sartre no Brasil, autor de "Sartre: metafísica e existencialismo", fala do pensamento e das obras de Sartre e de seu trabalho sobre o filósofo francês.
Bornheim, morto em 2002, foi professor universitário, filósofo e crítico de arte, foi um dos grandes expoentes de uma geração de professores que tornou conhecido do público brasileiro alguns dos principais temas e filósofos da Filosofia contemporânea , destacando-se por seus estudos sobre Sartre e Heidegger. Apesar de sempre declarar que sua formação estava muito mais para a Filosofia Alemã (Hegel e Heidegger), retornava sempre a Sartre, talvez fascinado por um certo encanto exalado por estae "moralista". Como ele mesmo declara nesta entrevista, talvez aí resida a grandeza de Sartre e a força que nele atrai.
Deixo para aqui um comentário que em nada desmerece o parecer de Bornheim, mas que me parece fazer justiça a obra de Sartre. Pois bem, "Heidegger era mais filósofo do que Sartre", afinal Sartre, além de filósofo, tinha que ser escritor, dramaturgo, ensaísta, cronista, biográfo, jornalista...




"Sinceramente, eu acho que Heidegger era mais filósofo do que Sartre."

Entrevista com o Filósofo Gerd Bornheim (retirado de: http://www.existencialismo.org.br/jornalexistencial/entrevgerd2.htm)


Nesta edição o JORNAL EXISTENCIAL On Line publica uma entrevista exclusiva, feita pela psilcóloga Flávia Machado, com um dos mais respeitados representantes do Existencialismo no Brasil, o filósofo, professor e doutor Gerd Bornheim.

Segue a íntegra da entrevista, que foi realizada no dia 14 de abril e complementada no dia 07 de julho de 2000.

FLÁVIA: Como o Sr. entende a concepção do homem para Sartre?

GERD BORNHEIM: Num primeiro momento Sartre pretendia fazer uma análise que desse conta da situação humana como tal. Faz "O Ser e o Nada" como a ontologia do homem de um modo absoluto, que seria válido para o homem de qualquer tempo, qualquer época, em qualquer lugar. Aos poucos, ele foi modificando este ponto de vista, foi quando ele passou para a "Crítica da Razão Dialética", que começou a assumir a causa política e social mais intensamente. Ele viu que de fato a análise que tinha feito daria para o homem contemporâneo do tempo dele, não de qualquer lugar. Ele tãz uma mudança dizendo que é o homem em situação. Ele adverbializa toda sua doutrina. A situação hoje, resta dizer, é uma adverbialização.

FLÁVIA: A concepção de liberdade também mudou conforme Sartre foi realizando sua obra?

GERD BORNHEIM: Muito menos, um pouco menos radical. Mas, o fato é que ele manteve o conceito fundamental. Só que não voltou com mais intensidade ao tema. A primeira fase o grande tema é a liberdade absoluta. Liberdade quer dizer antes de tudo responsabilidade. Só que antes a responsabilidade não era coletiva, e esse era o tema da Critica da Razão Dialética. A liberdade é individual necessariamente, a responsabilidade tem que ser minha e de cada um. E nós somos responsáveis por toda humanidade. Essa idéia não é nova, é de Kant. A dialética de Kant é calcada exatamente neste pnncipio, que quer dizer que é uma idéia que atravessa os tempos modemos e vai estourar com toda sua força justamente com o pensamento de Sartre.

FLÁVIA: Como o Sr. vê a liberdade sartriana com o mundo globalizado. Essas duas visões combinam?

GERD BORNHEIM: Combinam. Mas combinam até uma certa camada da sociedade, eu diria a sociedade burguesa, mais classe média, digamos assim. Aí cabe perfeitamente bem, me parece. A liberdade de nossa época é justamente a liberdade sartriana, que tem raízes que remetem a Descartes. A liberdade, já dizia Descartes, o livre arbitrio, é a coisa mais importante que há no homem. E Descartes foi o primeiro que afirmou isso e é dentro desta linha e de Kant também, que se situa o pensamento sartriano. Agora, há toda uma evolução em Sartre. Na última fase de Sartre a consciência não é mais tão importante, a liberdade é. Mas ele passa a pensar as coisas a partir do conceito de vivência, uma certa oposição do claro e do escuro, do claro e opaco. O homem não é completamente transparente, tem regiões opacas nele também. E começa a se reconciliar com o inconsciente de Freud, através de Lacan. Isto é muito importante também Sartre não admitia o inconsciente antes.

FLÁVIA: Em quais obras podemos observar estas mudanças em Sartre?

GERD BORNHEIM: Por exemplo, na análise que ele fez sobre Gustavo Flaubert, no "Idiota da família" ou então no meu livro "O idiota e o espírito objetivo", que tem um longo ensaio sobre o Flaubert de Sarte.

FLÁVIA: O Sr. vê convergências e divergências entre Sartre e Heidegger?

GERD BORNHEIM: Grandes. No princípio Heidegger exerceu certa influência sobre Sartre. Depois ele se afastou, porque Heidegger se preocupava cada vez mais com a questão do Ser, do ontológico, e para Sartre a questão toda se concentra na dicotomia sujeito e objeto, que é justamente o que tem que ser superado, segundo Heidegger. Este era um pensamento oposto entre os dois. E em segundo lugar, há toda a questão política e social em Sartre, na qual Heidegger nunca se meteu de cabeça aberta, digamos assim, e Sartre pensava cada vez mais na questão social. Isso os afastou muito.

FLÁVIA: O que o Sr. pensa sobre os psicólogos que utilizam os princípios filosóficos sartrianos ou heideggerianos como base de sua psicoterapia?

GERD BORNHEIM: Eu não sei bem pois não sou técnico de terapia. Mas ouço que existem muitos grupos formados que fazem esse tipo de trabalho. Agora, como isso se desenvolve eu não tenho a menor idéia. E isto parece inclusive uma espécie de moda agora.

FLÁVIA: Como o Sr vê a Filosofia Clínica?

GERD BORNHEIM: Eu estou ouvindo falar nisso. Alguns colegas estão fazendo isso. Eu não estou a par da metodologia, digamos assim.

FLÁVIA: Gostaria que o Sr. falasse sobre os seus livros nos quais faz uma análise sobre o pensamento sartriano?

GERD BORNHEIM: O meu primeiro livro sobre Sartre chama-se "Sartre, metafísica e existencialismo" e apareceu pela editora Perspectiva de São Paulo. Já tem diversas edições e está esgotado. Mas, no mês de agosto deve sair uma nova edição. Eu tenho outro ensaio sobre Sartre que é "O idiota e o espírito objetivo", um livro de cerca de 100 páginas sobre o último livro de Sartre que é "O idiota da família". No primeiro faço uma exposição e a segunda parte do livro é, toda ela, uma crítica à Sartre. É bastante violenta. Ela está calcada em Heidegger. Como eu tenho dois livros, ou um e meio sobre Sartre, muita gente pensa que eu sou sartriano. Eu sempre vejo Sartre com muita simpatia. Por exemplo, ele é o homem que assume as contradições do nosso tempo como ninguém. Muito mais que, por exemplo, a escola de Frankfurt, eu acho. Isso lhe dá uma atualidade muito grande. Mas a crítica que eu faço a Sartre, que fiz quando escrevi o livro há 30 anos atrás, tem inspiração heideggeriana.

FLÁVIA: Então, o Sr. é mais heideggeriano?

GERD BORNHEIM: Olha, depois eu me tornei muito crítico também em relação a Heidegger. Agora, sinceramente, eu acho que Heidegger era mais filósofo do que Sartre. Sartre era antes de tudo um moralista. A grandeza dele está exatamente aí.

FLÁVIA: Tanto Sartre quanto Heidegger utilizaram o método fenomenológico para basearem seu pensamento. Como o Sr. vê a utilização desse método feita por eles?

GERD BORNHEIM: São utilizações derivadas do pensamento de Husserl. Eles não têm mais o rigor formal de Husserl. Trata-se de escrever não mais essências. E aí há uma discordância radical em relação ao pai da fenomenologia, onde fica presa a imanência da existência. Então, são os fenômenos que têm que ser descritos. Os critérios muitas vezes são da fenomenologia de Husserl. Mas, o que interessa são os fenômenos existenciais dentro dos quais o homem está instalado. Sartre tenta fazer isto, por exemplo, em seu livro "A Náusea", que é uma belíssima análise fenomenológica do fenômeno da náusea, que interessa muito a vocês psicólogos. É um exemplo perfeito da fenomenologia tal como Sartre a entende. E em Heidegger toda concepção do homem como ser-no-mundo é fundamentalmente uma descrição fenomenológica muito bem feita também.

FLÁVIA: Muitos psicólogos estão utilizando o método fenomenológico em suas teses e pesquisas de mestrado e doutorado. O Sr. acha que esse método é o mais adequado para as elencias humanas?

GERD BORNHEIM: Acho. E o perigo sabe qual é? É que ele pode estar como que se dissolvendo. Esquece-se amiúde as exigências formais do método. Quer dizer, a parte especifícamente metodológica é substituída por uma descrição e, muitas vezes, não se vê bem quais são os critérios, os referenciais metodológicos dessa descrição. Então, o método fenomenológico tende a correr o risco de se dissolver e desaparecer.

FLÁVIA: O que o Sr. pensa sobre os existencialistas hoje no Brasil

GERD BORNHEIM: Bom Heidegger tem uma boa representação no Brasil, eu diria. Sartre eu não vejo tanto, mas em compensação ao nível de mestrado e doutorado tem muita coisa satriana que não aparece ao grande público. Eu vejo pela imprensa que na França a obra de Sartre está muito valorizada agora. Estão retomando à obra de Sartre. Eu acho normal. Não dá para ficar em Sartre, porque, na filosofia, nunca se fica em filósofo nenhum. É que Sartre, mesmo na França, nunca foi objeto de fato de um estudo rigoroso. A bibliografia sobre Sartre é toda muito de vulgarização. De popularização, digamos assim. Mas, uma análise mais pertinente não existe, inclusive na França. A bibliografia sobre Sartre, de modo geral, é muito superficial. Talvez porque Sartre sempre recusasse a ser professor universitário. Nunca participou da vida acadêmica parisiense. Agora, chegou o momento de se fazer uma análise rigorosa do pensamento de Sartre. É um pensamento muito importante.

FLÁVIA: O Sr. fala, por exemplo, de Descartes como base de todo pensamento sartriano

GERD BORNHEIM: Porque a grande influência sofrida por Sartre foi Descartes. Sartre é um francês e o filósofo oficial da França é Descartes. Então, tudo parte de Descartes. A terminologia é mais Hegel, mas os pilares da filosofia sartriana são sujeito e objeto. E quem introduziu isto, de fato, com autonomia foi justamente o pensamento cartesiano. E o esquema formal, eu procuro mostrar isso em minha análise sobre "A Náusea", é o "Discurso sobre o método" de Descartes. O esquema formal é igual, só que Sartre existencializa a coisa toda. Não é tão intelectualista quanto Descartes.

FLÁVIA: Eu gostaria que o Sr. falasse sobre seus últimos livros e futuros lançamentos.

GERD BORNHEIM: O últimos que sairam foram "Páginas de filosofia da arte" e "O Conceito de Descobrimento". O primeiro, "Páginas da filosofia da arte" é uma coletânea de ensaios sobre estética, fala sobre o setor de artes plásticas, o setor de teatro, história da arte e diversas outras coisas. É um trabalho que está tendo muita aceitação e eu estou muito satisfeito com a saída deste livro. E o outro, "O Conceito de Descobrimento", foi publicado agora pela UERJ. A primeira edição já está esgotada. Vai sair a segunda edição em breve. Eu estou preparando um novo livro que talvez fique pronto ainda este ano. Acho que vai sair com o nome de "Vária Filosófica". Eu gostaria de dizer também que estou escrevendo um breve prefácio sobre a tradução brasileira do livro "A Critica da Razão Dialética" de Sartre. Estou começando a fazer este trabalho agora.

FLÁVIA: Muito obrigado por essa entrevista ao Jornal Existencial On Line. Ela vai ser importante para muitas pessoas.

GERD BORNHEIM: Obrigado a todos vocês. Foi um prazer fazer a entrevista.

O Filósofo Gerd Bornheim leciona regularmente filosofia na UERJ e é muito solicitado para ministrar palestras em congressos e outros eventos no Brasil e no exterior.